A Redenção

por Cláudia Carvalho

Eram tempos antigos onde o pai era tratado como senhor e imperador de todas as vontades.
Onde as opiniões não tinham lugar eis que caladas no aborto prematuro pela intransigência patriarcal.
As raízes humildes eram as razões da desculpa para justificar a aspereza daquela alma.
O mel dos seus olhos a genética estampou nos meus.
Em sua estatura mediana, troncuda e amorenada pelo sol, destacavam-se aos meus olhos seus braços, orgulhosamente exibidos no formato musculoso, que lhe atribuíam a força excepcional de um touro indomável. 
À sua voz tremia o trovão.
Assim o via eu em criança. 
Meu pai, uma verdadeira força da natureza.
Árduo trabalhador, começava a jornada antes do alvorecer, sempre de botinas e de chapéu de palha, lá seguia meu pai em seu caminhão.
Dias com água até os joelhos na extração de areia dos rios, outros com as mãos calejadas sangrentas pelo descarregamento de pedras e retiradas de escombros de construções. Tijolos e blocos de concreto empilhados em seus braços, telhas apoiadas em seus ombros, a terra cavada do chão pilado com a força de suas mãos.
Assim, vestido de dignidade, trazia o sustento para a família.
Sem dúvida, um homem de valor, um ser admirável, merecedor de respeito e gratidão.    
Mas a alma dos seres vive de afeto e no lugar do colo paterno a rudeza nunca me permitiu estar.
Pois os gestos rudes se estendiam da alma, roubando, na violência da indiferença, toda a espontaneidade do carinho daquela criança.
Os olhos grandes destacavam-se curiosos na delicada feição infantil a examinar atentamente o patriarca que surgia à frente ao tamanho de um gigante.
E vivendo como verdade as fantasias do mundo da imaginação, podia sentir-me suspensa no ar a rodopiar segura na fortaleza dos braços paternos, ao som da musicalidade aguda dos risos infantis.
O relógio, dono do tempo, aos passos apressados de seus ponteiros, escoou da infância aquela criança.
Agora estreitos na aparência amendoada da adultez, os olhos não expressavam mais a curiosidade de outrora, eis que adaptados à sombra do conhecido.
Um verdadeiro abismo dividia agora os nossos mundos, no eco da orfandade do afeto e da cumplicidade, interligando-os apenas pela ponte tecida das amarras indeléveis dos laços de sangue.
Minha voz nunca conseguiu chegar aos ouvidos do aconselhamento paterno.    
Ressentia-me diante dos braços ainda fortes posto que, na intensidade da ausência paterna, não usavam sua força para recolher meus pedaços espalhados pelo caminho da existência.
Um choro de criança irrompeu naquela dimensão temporal de nossas vidas, dádiva que eu trouxe ao mundo de meu pai, agora avô de uma menina.
Neta primeira a despertá-lo para os sentidos de uma experiência existencial inédita.
E, no cálice do elixir do tempo, finalmente meu pai serviu-se do licor doce da ternura que estava reservado em um esconderijo qualquer de si mesmo.
Um estranho surgiu à minha frente, suavizado nas rugas marrentas da alma, esboçando sorrisos tolos nos olhos e distribuindo gestos de carinho despejados, à fartura, do coração.
Nesse encontro de gerações, a paisagem antes cinza começou a ser pincelada pelas cores suaves da aquarela pintando um cenário inédito naquele palco.
E na minha pele, através da extensão de mim mesma, podia sentir então o toque do carinho paterno no alto do colo do abraço amoroso que desfrutava a minha filha.
Agora, eu não me via mais como a protagonista da história, senão uma espectadora ávida para assistir aos novos capítulos daquela saga heróica.
Meu pai, submisso, rendia-se conformado às brincadeiras e aos melindres infantis, que eu me lançava a protegê-lo dos abusos ingênuos daquela criança.
A habilidade para amar que eu presenciava nascer nos desertos de meu pai, não podia apagar de minha alma as cicatrizes das feridas afetivas do passado, mas me afortunou ao tecer uma relíquia para ungir o meu inconsciente, onde as palavras mudas e os sentimentos petrificados jaziam à espera de redenção. 
Com a generosidade advinda da maturidade emocional, desatei-me das mãos de minha infância ao escolher seguir em frente o curso da vida.
Somos todos elos em continuidade e aperfeiçoamento de nossa linhagem e, nesta condição de interdependência, coadjuvantes nos recíprocos avanços da existência.  
E, nesta consagração, onde a perfeição não importa diante da vitória a ser celebrada ao ritmo dos passos evolutivos, reina majestosa a redenção como fonte de transformação das relações humanas, onde a clemência pode ser silenciosa mas está presente no grito da libertação.

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