Lembro-me com muito carinho da casa onde nasci. Era um sobrado no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, com um jardim na frente e um grande quintal nos fundos, onde havia árvores frutíferas, uma horta, um cachorro e dois jabutis. A janela do meu quarto dava para esse quintal.

 

Num sábado, no começo do verão de 1975, acordei cedo, pulei da cama e corri ansioso para janela. Se fizesse sol: clube, passeio, a glória. Se estivesse nublado, o programa seria brincar no quintal. Em caso de chuva, televisão era o que me restaria.  Aberta a veneziana, um céu de brigadeiro me encheu de alegria. De lá, avistava os telhados ao redor, banhados pelo sol intenso da manhã. Mas foi quando olhei para baixo que tive a maior surpresa da minha vida. Minhas pernas bambearam e cheguei a sentir uma vertigem pela visão inusitada. Olhando para o quintal da minha casa, deparei-me com uma grande massa de cor acinzentada, que custei alguns segundos para identificar como sendo um elefante!

 

No mesmo momento, percebi a movimentação da família, que saía receosa e assustada pela porta da cozinha para entender como aquele jotalhão tinha ido parar ali, balançando a tromba e devorando as couves de meu avô. Desci as escadas e saí para o quintal, indo grudar na saia de minha mãe. De perto, o bicho era ainda assustadoramente maior. Ouvindo a conversa dos adultos, compreendi que o elefante havia rompido a cerca de nossa propriedade, vindo do terreno baldio ao fundo, onde nos últimos dois dias vinha se instalando um circo. Estávamos todos ali estupefatos quando pela mesma cerca derrubada veio caminhando em nossa direção um homem de jaquetão vermelho e cavanhaque. Já de longe acenava e com forte sotaque estrangeiro pedia desculpas. O elefante escapara por distração dos cuidadores, explicou, mas seus funcionários já o tirariam dali e fariam os reparos necessários. Disse mais: o espetáculo estrearia naquela noite e  seríamos seus convidados de honra, como forma de retratação.

Resolvido o insólito incidente, fomos ao clube, onde passamos o dia e só voltamos na hora de nos prepararmos para o programa noturno. Todos prontos, demos a volta no quarteirão eu, meus pais e meus avós. Nossas cadeiras eram bem na frente, tão próximas ao palco que o palhaço, em seu número, chegou a nos espirrar um pouco de água. Vimos também o mágico serrando uma mulher ao meio, malabaristas sobre cavalos, trapezistas na corda bamba, o domador arriscando a vida na jaula do leão e finalmente ele, que para mim era o protagonista do show. Ao rufar dos tambores, nosso breve hóspede entrou pesadamente pela cortina e percorreu o picadeiro em círculos. As crianças gritavam de alegria, enquanto os adultos batiam palmas. Foi emocionante. Deu voltas em torno de si, ajoelhou-se, andou de marcha à ré e balançou-se ao ritmo da música. Por último, sob o comando de seu treinador, aproximou-se cuidadosamente de um banquinho, apoiou-se sobre ele, e com um impulso ensaiado, colocou-se de cabeça para baixo, como que plantando bananeira com uma só pata. Nessa posição, o elefante olhou para a plateia ao seu redor e nos reconheceu. Lentamente levou a outra pata ao ar e então nos acenou, enquanto parecia sorrir. Ou foi quase isso.

 

Tudo isso para dizer que nossas melhores histórias acontecem na infância, dentro de casa. E que aquela criança que fomos ainda existe em nós. Então, que possamos ouvir essa criança e fazer casas que nos permitam viver lindas histórias e  ser muito felizes. Simples assim.

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