Lembro com muita nitidez da escola que frequentei na infância. Era uma escola de bairro, em São Paulo, que foi crescendo e conforme crescia ia adquirindo os imóveis ao seu redor. As instalações iam se adaptando e as residências daquele quarteirão foram pouco a pouco se tornando um edifício escolar. Salas de estar iam se tornando salas de aula, banheiros sendo adaptados, quintais virando quadras e pátios cobertos. Essa é também a história de muitas escolas que temos atendido ao longo de nossa vida profissional.

 

Acontece que chega um momento que, se tudo der certo, tais instalações não comportarão mais seu crescimento, seja pela quantidade de alunos, seja pelas demandas cada vez mais específicas da educação, e é chegado o momento de construir um edifício adequado para suas funções. O primeiro “estirão”, digamos assim.


No caso da escola em que estudei, esse edifício novo, fruto do amadurecimento da escola, foi construído em outro endereço. Era um prédio enorme, com vários andares e largas rampas de concreto que os interligavam. A cantina se assemelhava a uma praça de alimentação de shopping e a quadra era de piso emborrachado. Bem diferente do piso de cimento onde havíamos aprendido a jogar Queimada e que havíamos apelidado de “terremoto” pelas tantas trincas que apresentava.


Todos achavam linda a nova escola. E era. Mas, faltava alguma coisa... E é sobre isso que eu quero falar.
Tenho visto algumas escolas serem construídas como se fossem edifícios de escritório. Construções rápidas, limpas, modernas, ótimas para manutenção, excelente relação custo x qualidade. Prédios excelentes, mas onde, ainda assim, falta alguma coisa.


A relação do aluno com o espaço construído é uma rica fonte de informação/formação desde a pré-escola. Assim como tudo mais que não consta do currículo escolar tradicional e que fornece ao aluno experiências de vida, de aprendizagem e de formação de sua personalidade e caráter, o edifício escolar deve ser tratado com o cuidado que cerca o trabalho com nossas crianças.


Em primeiro lugar, como requisito básico, deve-se preocupar em fornecer um ambiente saudável para a vivência diária. Iluminação, ventilação, dimensionamentos adequados de salas. Facilidade de acesso na entrada, ampla circulação e pátios que comportem as atividades de recreação para todas as idades. Estes elementos dizem o quanto nos preocupamos com nossos alunos e o quanto eles são importantes. O quanto acreditamos e levamos a sério nossa proposta de trabalho.


Para além da garantia desses cuidados, destacamos a arquitetura como arte. Como elemento capaz de ampliar os horizontes de um jovem em formação. O ambiente construído pode, e deve, despertar bons sentimentos, instigar, nos tirar de nosso mundinho e propor desafios. Romper paradigmas e mostrar que não estamos limitados às quatro paredes que temos visto por aí. A arquitetura escolar e o ambiente da aprendizagem fazem parte do currículo oculto, por isso o orientador pedagógico deve se envolver na discussão do espaço construído.


A ligação das crianças com a escola é extremamente afetiva, e é muito bom que seja assim. Não se vai à escola apenas para aprender a lição. Nós vamos também para aprender a nos socializar, para aprender a nos relacionar. Aliás, para 'apenas' para aprender, não! Na escola, vamos 'fazer a vida acontecer'! A escola não é, como dizem, um laboratório para a vida. É a própria vida.
Nós projetamos e construímos escolas que provoquem boas lembranças e que tenham significado.

Arquitetura para Educação 

Por Álvaro Lima Castro

©2018 desenvolvido por Gustavo Matheus