A Semente

por Cláudia Carvalho

Espiei pela fresta da porta entreaberta.
Lá estava ela. 
A acarinhar em redemoinhos os cabelos de uma criança deitada no abrigo morno do conforto de seu colo.
Não posso distinguir-lhes as feições, embaçadas que estão pelos raios do sol a escapar pelos vãos do forro que cobre as memórias antigas.  
Mas a intuição da alma sabe reconhecê-las.
Fecho os olhos para sentir onde está a linha invisível a me costurar na dimensão acolhedora que me acena.
Reino da inocência de um tempo simples e de gostos singelos, antagonismo de uma vida modesta, mas de olhos grandes vorazes de sonhos coloridos pela fantasia que veste a infância.
Descubro na memória olfativa a conexão, e no envolver da fragrância doce e suave me desloco para os carinhos daquelas mãos.
O passado agora me encontra no toque amoroso do afago materno.
As lembranças rodopiando a trazerem do barro aquela criança.
O afago daquelas mãos.
Ainda sinto a suavidade da pele macia que resistia aos calos da dura batalha pela vida, ao roçar dos dedos da mão delicada pelas linhas da feição infantil, em movimentos de vai e vem como nos passos da dança pela vida.
Por tantas histórias passearam aquelas mãos no compromisso de amor pela família.
Bordaram panos e pintaram cabelos, dançaram na velocidade por teclas a compor músicas ritmadas, rabiscaram papéis, organizaram arquivos.
Quando folgadas deitavam-se nos tantos afazeres domésticos com olhos no conforto do benquerer.
O esmero da casa contrastando com a simplicidade da moradia. 
A delícia das receitas da infância, o cheiro bom sugado pelos narizes gulosos.
Incansáveis, distribuíam gestos de carinho cobertos por tantos cuidados e, unidas, palma a palma e em direção ao infinito, essas mãos ainda arrumavam tempo para se darem em oração e me apresentarem à fé.
Essas mãos, eu as reconheço, são embarcação de um coração de infinita bondade, de um caráter íntegro, de uma alma nobre.
São mãos que me embalaram, me firmaram e que ainda me sustentam agora nos soluços da alma, das quais eu nunca estarei pronta para soltar.
Minha mãe e seu olhar amoroso me vendo além do que quero revelar.
Seus gestos macios na compreensão de minhas escolhas.
A maternidade, áurea conexão com o cosmos ao tempo do infinito.
Minha mãe, presença viva, memória eterna no refúgio de minha alma.
De repente, o relógio do presente desperta o som de suas promessas aos meus ouvidos e as lembranças fogem para seus esconderijos. 
E o tempo lança o pião que rodopia veloz no vazio, trepidando sobre o apoio da ponta metálica no movimento hipnótico.
Ouço um ranger de portas.
Sinto cheiro de infância.
Espio pela fresta da porta entreaberta.
Lá está ela. 
Em meu abraço sorridente e refletida no espelho d´água dos meus olhos, minha cria, minha criação.
A minha herança de vida.
A mais fantástica aventura a humanizar o meu ser.
A semente de minha descendência germinada, a florescer e a frutificar no pomar da grandiosa experiência de amor da existência humana. 

Cláudia Carvalho

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A fortaleza da Rosa

São tantas as flores espalhadas pelo caminho.  
Umas se sustentam pela beleza, outras pelo perfume e muitas pela indispensável delicadeza da simplicidade a decorar a travessia.

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Cláudia Carvalho

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