Dia(s) dos Namorados

Considerando o tema imposto (sim, desta vez foi imposto), algumas considerações preliminares são necessárias. Em primeiro lugar, meus protestos ao Fábio e à Vitória, visto que o tema me é restrito em tempo/época, sob pena de retaliações severas da atual (e vitalícia) detentora do cargo, que não é muito ciumenta, mas também não bobeia...
 

Em segundo lugar, falando dela, entram algumas particularidades do nosso namoro de mais de trinta anos. Embora quando comentei o tema da revista e ela tenha me pedido que falasse bastante dela (coisas amorosas) e eu tenha perguntado se ela realmente tinha certeza que queria que fizesse isto (a absoluta verdade), concordamos plenamente que a vida do casal é personalíssima e diz respeito somente a nós. Esqueçam declarações de amor ou aquelas “tudo é lindo e maravilhoso” em redes sociais; não é nossa praia; é parte da nossa cumplicidade....

Mesmo que seja um pedido da TOP!!!
 

Em terceiro, porque isto não é personalíssimo e sim comum a todos os casais, namoro é diferente de casamento. Citarei Paula Fernandes, o que me causará problemas (ela odeia Paula Fernandes...): é a exata diferença entre sonhar para viver e viver para sonhar. Namoro é uma coisa, casamento é outra, embora neste dia 12 todos venham com aquela história de minha eterna namorada... Namoro não tem boletos, não tem filhos e seus encargos, ainda que maravilhosos, não tem toalha molhada na cama, não tem cigarro aceso no quarto, não tem coisa bagunçada (!!!!), não tem cartão estourado e outras coisas que todos que ainda continuam lendo este texto concordarão. No namoro, o trabalho só atrapalha nossos horários... no casamento, ele, ainda que ruim (porque se fosse bom ninguém precisava pagar para a gente trabalhar), é um aliado.
 

Os poucos leitores restantes deste texto, ainda que por mera curiosidade do final e exatamente por isto, estarão questionando qual o motivo de aparentemente este autor “estar detonando” (homenagem ao gerúndio das telemarketings) o Dia dos Namorados... Não estou; e muito pelo contrário.
Vamos às explicações. A começar pelo título, verão que ele está no plural; não existe o Dia dos Namorados e sim os Dias dos Namorados. Não adianta bombom, jantar e flores num único dia (é fingimento ou mise-en-scéne); prefiro a autenticidade, a cumplicidade e mesmo a “ogrice” do dia a dia. A princípio serei execrado em casa, pois minha mulher não é também tão boazinha quanto pensam, mas sei que no fundo concordará comigo.

 

Outro motivo é que sou “meio das antigas”. Hoje a moçada transa, depois fica e se der certo namora... - faço aqui um parêntesis: isto não tem nada ver com liberdade sexual dos jovens, que respeito e sou favorável, observadas as condições de segurança e a ausência de promiscuidade. Esta sequência causa, em minha opinião, certa fragilidade temporal e inconsistência ao namoro. 
 

Tentando não confundir mais ainda, namoro não é um dia, namoro não são flores, namoro não é “relacionamento sério” no Face. Namoro é dia a dia, são brigas e aparar de arestas, é boca fechada na hora em que mais dá vontade de falar (minha mulher ainda está em fase de treinamento – aliás, acho que todas), é dividir boletos, é planejar em conjunto (ainda que cedendo), é uma alegria quando o outro sai para se ter um pouco de sossego (mas que passa meia hora depois), é fingir dar risada com a roda do carro raspada, é falar que a comida está uma delícia, é não revidar o azedume, é entender a necessidade do equipamento para a moto (assim como a falta constante de sapatos) e assim por diante.
 

Diante disto que escrevi, aqueles que se reconheceram ou se solidarizaram, tem um namoro de verdade, ainda que com mais de trinta anos. Namoro é cumplicidade num amor maduro...

Roberto Amaral

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Mulher!

Confesso que desta vez, mais do que nunca, tentei me esquivar do texto. Quando recebi o tema imposto pela Revista Top da Cidade pensei em esquecer, falar que estava muito ocupado, gripado ou até temporariamente desprovido de inspiração. Só pensei. Mesmo do ponto de vista da pretensa e imodesta vocação literária, missão dada é missão cumprida.

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