JOSÉ FAMA DIAS e PEDRO

Sucessão pelo amor:
sozinho, pai adota e educa filho

Suceder deriva das palavras latinas successio, “avanço, seguimento”, e de succedere, “vir depois, chegar perto de”. Curioso é que uma palavra tão significativa para José Fama Dias, de 65 anos, esteja tão próxima de sucesso - outra palavra bastante relevante para o professor universitário de Matemática e Economia. É que depois de uma carreira bem-sucedida no sistema bancário internacional, Fama pensou na sucessão e decidiu adotar uma criança. “Como não era casado e não tinha filhos, decidi por dar um lar para uma criança”, conta.

 

Foi um processo lento. Começou em 2008, embora que antes mesmo já pensasse em filhos. “Sempre gostei de crianças. Na minha família sou o caçula e tenho só um irmão. Lembro de pedir aos meus pais que tivessem mais filhos (risos)”, lembra.
Em 2008, José Fama entrou com o pedido de adoção e no mesmo ano tornou-se habilitado para adotar pela Justiça. Logo em seguida, começou a participar das reuniões semanais do Grupo de Apoio à Adoção de Itapetininga (Gaadi), onde conheceu histórias das alegrias e dos problemas que os pais adotivos passavam. “Assustou um pouco, principalmente dos casos de crianças que não se adaptavam e eram devolvidas. Graças a Deus, não passei por algo assim”, comenta.
Foram quatro anos de espera, até que em 26 julho de 2012 finalmente Pedro (nome do pai de José), hoje com 6 anos, chegou em sua vida.

 

Pai e filho se conhecem
José pensava até em desistir de adotar pelo tempo que se passava, mas recebeu uma ligação que mudou sua vida. “Achava estar ficando velho demais, até que surgiu um bebê disponível para adoção. Perguntaram se eu queria vê-lo antes de adotar, mas para mim, já era meu filho a partir daquele momento”.
“Fui até o abrigo em que estava, até que vi o Pedro, com apenas 11 meses. Logo que o carreguei, com suas mãozinhas ele agarrou meu braço. Foi uma empatia, uma emoção muito forte. No mesmo dia queria voltar com ele para casa, mas só poderia após alguns dias. Foram quatro dias em que aguardava, ansioso, para vê-lo no abrigo”, recorda.

 

Em 30 de julho, pai e filho viveram seus primeiros dias juntos como pai e filho. “Ele entrou em casa muito tranquilamente, olhando para o teto, analisando a iluminação, enfim, todos os detalhes da casa. Ele deixou toda a angústia e aflição para mim”, afirma.

 

Vida de pai
Mais forte que qualquer dieta foram as preocupações e cuidados da nova rotina do pai adotivo, que perdeu dez quilos em um mês. Se antes José Fama tomava conta de si mesmo, depois da chegada de Pedro era preciso saber dar mamadeira, banho, trocar fraldas entre outras técnicas que não se ensinam na faculdade. “Como tinha pedido um menino entre 1 e 5 anos, esperava alguma criança maior. Porém, não iria dizer ‘não’ para uma criança por um mês de diferença. E encarei a paternidade de primeira viagem”, diz.

 

Passaram-se dias, meses e anos. Hoje, os problemas são outros e o amor cada vez maior. “Ele é um menino muito amoroso. Claro, tem algumas coisas próprias de criança da idade dele, mas é um menino que não pede nada, que entende porque precisa fazer o que peço, é um garoto que senta na mesa perguntando quando vamos fazer a lição de casa”, descreve.
O pai prossegue: “Ser pai me fez ser uma pessoa melhor. A paternidade tira o melhor de você, mas claro, não é fácil. Minha decisão de adotar foi por agradecimento a Deus, pois saí da zona rural de São Miguel Arcanjo para viver coisas que nunca tinha imaginado. Então, agora, posso proporcionar a ele chances para ser uma outra pessoa, que talvez tivesse as mesmas oportunidades”, reflete.
    
Apoio
Questionado se sofreu algum desconforto por adotar sozinho uma criança, José Fama nega e ressalta o apoio de família e amigos. “Quase nenhum problema. Só mesmo quando tive que levar o Pedro a uma pediatra, a pedido da Justiça. Quando ela me viu sozinho perguntou se a lei permitia que eu adotasse sozinho. Ora, se a Justiça tinha me mandado lá, é claro que sim. Enfim, recebi muito mais apoio e incentivo das pessoas com quem convivo e de quem conhece a história”, conta.
    
Conselhos
Educado em um lar com mais regras que as atuais, José Fama tenta misturar um pouco dos limites de antigamente com a liberdade atual. “É complicado, como é que não vou deixar que meu filho use tablet ou celular se todos os amiguinhos da escola usam? O que faço é impor limite de uso, por exemplo, mas não dá para criar uma criança em uma bolha separada do mundo”, filosofa.

Sobre adotar, José Fama incentiva e aconselha. Quem tiver vontade, adote, o tempo de espera vale a pena”, conclui. Ele ressalta, também, o apoio importante que o Gaadi proporciona aos pretendentes à paternidade. “Aprendi muito no Gaadi. Foi, e ainda é, um apoio muito importante!”.

 

José Fama foi um dos primeiros homens a beneficiar-se de uma prerrogativa legal, que lhe concedeu o afastamento do trabalho por 120 dias, assumidos pelo INSS, após a adoção: a sua licença paternidade.

A psicóloga do Gaadi, Regina Maria Soares Mendes de Souza, foi ouvida pela Revista Top da Cidade para falar um pouco sobre paternidade e adoção.

 

Top: O que é preciso de um pai para que ele possa adotar?
Regina: A motivação para adotar deve ser a de querer ser pai, o que vai exigir acolhimento, compromisso, cuidado, amor e dedicação. Quando falamos em adoção, falamos da busca espontânea por um filho para toda a vida. Importante salientar que vai exigir empenho nesta caminhada, uma vez que a paternidade irá contribuir na formação de um ser humano que irá viver em sociedade.

 

Quais exemplos um pai precisa ensinar?
As figuras parentais são sempre a primeira referência para os filhos. Com eles os filhos aprendem a se relacionar e entender o mundo. Pais são modelos de valores, ética e conduta diante da vida.

 

Existe algum "segredo" de como ser um bom pai?
Não existe uma receita para uma educação bem-sucedida. O que existe são princípios importantes que devem reger o comportamento de pais e filhos: respeito por si e pelos outros, limites, solidariedade e companheirismo. Sempre cuidando e ensinando a cuidar em todos os aspectos.
 

O pai adotivo tem alguns cuidados a mais em relação aos outros?
Quando falamos de crianças estamos falando de pessoas em situação peculiar de desenvolvimento, o que exige cuidados nos aspectos físicos, psicológicos e sociais. Nunca se deve olhar para esta criança com dó, ou querer compensá-la pela sua história pregressa. Ela precisa de uma família que a proteja e lhe propicie segurança. Desta forma, crescerá fortalecida.


 

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