MEU ADEUS AOS AMIGOS

Tendo já visto tantas e tantas coisas, ostentando conhecimento de muito mais, apesar de ter ainda muito a aprender, para mim, infelizmente não vai dar tempo, sinto a presença de algo no ar pronto para levar minha vida.
Como se fora uma enorme tela de algum cinema vai passando tudo que está impregnado em minha memória de vida. Recordo-me das pescarias com meu amigo João Gilberto, quantos peixes grandes nós pegamos no rancho em Angatuba, ficávamos a semana toda pescando em lugar cevado e em outro rancho erguido no Curuçá, nem rancho era, era uma casa de tijolos na beira do rio. Pobre João Gilberto, há muito ele já se foi, para onde irei daqui a alguns dias.

 

Recordo-me do meu outro amigo, o João Bosco, irmão de convivência, nós costumávamos a fazer apresentações de lutas nas escolas. A última que fizemos juntos foi há muito tempo na Exposição Agropecuária de Itapetininga. Fizemos sucesso, foi em dois mil e treze, fomos muito aplaudidos, o João Bosco também faz tempo que se foi. E tantos outros dos meus amigos se foram anteriormente, mas eu fui ficando.
E meus passeios pela Juréia com meus filhos e sobrinhos, uma loucura, ficávamos perdidos naquele labirinto de árvores, espinheiro, arbustos e muita água, muito mangue. Também explorávamos as cavernas, era emocionante, a adrenalina subia arrepiando o couro cabeludo, acho que isso que nos deixou quase totalmente carecas. 
E quando eu ganhava alguma medalha nos torneios de Hapkido, era a glória, meu orgulho resplandecia fuzilando os adversários, era o máximo, era o esplendor da volúpia da felicidade. Essa onda de luta vem desde remotos tempos e até os dias de hoje tem gente se digladiando apenas por puro prazer de lutar, é um esporte que confecciona poder e isso todos almejam, todos os estilos de lutas e artes marciais não são nem melhor e nem pior, as lutas são apenas diferentes.
Enfim, não chores por mim, nunca fui rico em dinheiro, mas fui milionário em aventuras e divertimentos, quanto não valeu os banhos de cachoeiras que tomei quando estava suando de calor, eu posso garantir que desfrutei a vida, eu me diverti, eu vivi. Sou mais eu. 

 

Sou faixa preta de Hapkido, sou valente e não fujo de um conflito, deste também não fugirei, enfrentarei essa estranha aparição que quer me levar e se possível, mais uma vez a derrotarei, já tive conflitos com ela e até agora a vitória foi minha. Passei por quatro enfartes, tirei-os de minha frente, costumo dizer que matei esses abreviadores de vida, já caí de um sobrado com mais de cinco metros de altura e saí apenas com um braço quebrado, corroendo minha volúpia, um Mal de Parkinson tenta me travar, levar à cama e logo ao óbito, luto contra ele há mais de quinze anos, também contraí uma pneumonia no interior da caverna Temimina, vários quilômetros caminhei até chegar no carro, acompanhado de meus filhos Marcelo e Marcos, atravessei essa selva na amargura de muita fraqueza tendo que parar para o descanso deitado na relva e conseguir folego a cada duzentos metros.

 

Já bem mais velho, passando dos setenta e um anos, sofri uma cirurgia de câncer, foi extirpado trinta centímetros do meu intestino, e depois, fazendo quimioterapia, deixando as defesas naturais do meu corpo deficitárias, contraí uma gripe terrível que podia se tornar uma pneumonia. Eu continuei na luta para a cura, ainda sentindo o sabor da vida, mas meus amigos, que acompanharam minha sina desde a infância, na adolescência e na melhor idade (melhor não sei para quem), se foram para não mais voltarem. 
Sinto um manto caindo sobre mim, luto com tenacidade e escapo do seu chamado, mas essa dama não dá trégua, já sinto perder as forças sobre nova investida e essa volúpia arrasadora vai levar-me daqui alguns dias, sinto na alma que desta vez talvez eu perca, não é muito, mas eu, como faixa preta, sou sensível e dá para uma singela demonstração de prever o futuro, sei que desta vez não escapo. Mas vou lutar, saberão o trabalho que darei para a morte me levar.

Mas desta vez vou, como já disse, não chores por mim, eu quero ser enterrado com meu quimono e minha faixa preta, ela é o meu orgulho, através dela é que eu conquistei minha cidade, meus amigos e tornei-me conhecido, através da faixa preta é que saí do anonimato, através da faixa preta é que depois de muitos anos voltei a estudar e até me formar, através da faixa preta eu aprendi a escrever como faço, a produzir livros de histórias, aprendi a me concentrar, aprendi a fazer tudo o que faço bem feito, através da faixa preta aprendi a viver, a prever o futuro e a proteger o meio ambiente, a proteger os mais fracos a punir os bandidos. Como eu sempre disse: “Faixa Preta pode tudo”.
Enfim, a faixa preta foi parte da minha vida então é justo que ela acompanhe meu corpo até sua extinção. 

Deixo em meu computador além desta mensagem, algumas histórias e alguns casos já escritos, espero que publiquem, pois é uma maneira de atrasar os meus leitores a acharem falta de minhas histórias, enquanto estiver sendo publicado, ao menos em suas memórias estarei vivo.
Quando estiveres em alguma mata virgem, ou em alguma cachoeira ou ainda em alguma caverna e vires alguma sombra se movimentando, não se preocupe, serei eu te protegendo, estarei nesses lugares o tempo todo, pois são esses lugares que eu amo e os preservo.  ADEUS MEUS AMIGOS. Tchau.

Dirceu Campos O 'velhinho' 1001 utilidades

Amor a Itapetininga. Esse parece um resumo adequado à trajetória de vida de Dirceu Campos, de 79 anos. Dirceu aposentou-se como ferroviário na década de 80, mas não parou: fez seis faculdades, trabalhou como professor em escolas públicas, escreveu quatro livros e há mais de 20 anos é colunista do Jornal Folha de Itapetininga. “Só aposento quando São Pedro chamar”, brinca sorrindo o intelectual.

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