Normose: A doença da normalidade

Parece que todos nós temos a preocupação de sermos normais, isto é, termos comportamentos ou aparência não muito diferentes da maioria das pessoas do ambiente onde vivemos. Entretanto é necessário definir o que é considerado ser normal.
Ao buscarmos essa definição vamos encontrar diversas formas de expressa-la, que podem ser resumidas como:
“Normal” é um adjetivo que qualifica algo como comum, regular e usual, significando que não foge aos padrões ou a normas da cultura onde vivemos. É seguir os comportamentos que são esperados de acordo com determinada situação e cultura.


Em estatística, consideramos como “normal”, valores que estão em até 95% de um valor médio de uma população, mas existe um problema: os valores médios de determinada população podem sofrer alterações com o tempo fazendo com que aquilo considerado “normal” hoje, não seja mais o mais comum amanhã!
Um bom exemplo desse fato é o famoso índice de massa muscular (IMC) que para ser considerado “normal” deve estar entre 18 a 25 kg/m2, mas atualmente os dados brasileiros mostram que mais de 50% da nossa população tem um IMC maior que 25, isto é, tem excesso de gordura corporal.
A rigor, deveríamos modificar esses parâmetros para enquadrá-los dentro do que é considerado “normal” por definição.


Ao visitar nosso médico após receber resultados de alguns exames, a primeira pergunta é: doutor, meus exames estão “normais”? Mas dificilmente questionamos sobre nossos comportamentos que muitas vezes são absolutamente “normais” ou comuns, mas será que são bons para nossa saúde?!
A publicação recente de dois estudos internacionais alertando sobre a frequência de dois riscos sérios à nossa saúde: o sedentarismo e o uso de álcool, cuja prevalência é superior a 50% da população, nos leva a fazer essa importante reflexão: será que ter um comportamento habitual, considerado “normal” é bom para nossa qualidade de vida?!


Essa não é uma reflexão inédita, já que em 2000, o médico americano Bowen F. White lançou seu livro “Ser normal não é saudável”, alertando sobre esse fato.
Os psicólogos Jean-Yves Leloup e Roberto Crema definiram como NORMOSE a essa situação em que um comportamento considerado absolutamente “normal” para a sociedade é adotado, se não pela maioria, pelo menos por grande parcela das pessoas, longe de ser saudável vem trazendo como consequência aumento de doenças crônicas degenerativas e consequentemente sofrimento às pessoas e custos inviáveis aos sistemas de saúde.
Assim sendo, quando observamos os resultados desses estudos, que revelam, que tanto o sedentarismo, como o hábito de beber álcool, se tornam cada vez mais “normais” precisamos alertar as pessoas sobre os perigos que estão correndo ao adotar esses estilos de vida ou hábitos que são muito comuns e socialmente aceitos, mas que, de fato, estarão destruindo sua saúde lentamente!


Convivo com muitos amigos, que embora sejam pessoas de alto nível educacional formal, têm comportamentos habituais no mínimo questionáveis: ingerem bebidas alcoólicas e dirigem; não praticam atividades físicas regularmente; bebem excessivamente nos fins de semana (quando não várias vezes na semana); comem muitos churrascos gordurosos; falam ao celular enquanto dirigem; dirigem em excesso de velocidade.
Esses comportamentos vêm se tornando tão comuns, que aos poucos vou me sentindo um cara estranho, anormal, fora do padrão! Afinal, uma cultura espera que seus componentes tenham comportamentos, se não idênticos, pelo menos muito semelhantes ao de seus pares.


Assim, para manter um bom convívio social, muitas pessoas preferem aderir àquilo que é considerado um comportamento mais “normal”, do que optar por comportamentos mais saudáveis.
É essencial lembrar que esses comportamentos vêm crescendo não por falta de orientação formal, mas sim, por força de uma mídia perversa e mentirosa que os promove e estimula de forma constante, repetitiva e alienante.
Se observarmos com atenção crítica todos os comerciais veiculados pelos diferentes tipos de mídia, vamos observar que a maioria nos leva a adotar condutas ou consumos, que se não forem prejudiciais a nossa saúde, no mínimo são totalmente desnecessários para melhorar nossa qualidade de vida.

 

Por que ainda se permite propaganda de bebidas alcoólicas? Por que não se criam facilidade reais para que as pessoas possam andar com segurança em calçadas decentes? Por que não se fazem ciclovias ou ciclo faixas adequadas, que estimulem as pessoas a se deslocarem de bicicleta para seus trabalhos ou para o lazer? Por que não se impede que se fabriquem carros que possam atingir velocidades maiores do que 120 km/h, já que essa é a velocidade máxima permitida em todo país?
Apenas continuar divulgando fatos que apontam para o aumento desses riscos, sem uma reflexão profunda sobre as verdadeiras causas dessas tendências visando sua correção creio ser mais uma enorme hipocrisia do nosso sistema.
Alguém acha que quem compra uma moto de 1200 cilindradas pretende andar no máximo a 120 km/h?!
Chega de hipocrisia! Vamos conciliar indignação com práticas coerentes!

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