PE. SÉRGIO DE AZEVEDO

O padre índio de Itapetininga

Mulheres, acabou o verão, e agora?

TOP 36: Mulheres: acabou o Verão. E agora?

Fim do verão, viagens, excessos alimentares, praia e piscina. Após os excessos das férias e verão, resta “correr atrás do prejuízo”. As queixas mais frequentes são manchas na pele marrons e brancas, pele envelhecida e queda de cabelos. O que fazer?

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A cor da pele e o sotaque denunciam, mas o nome destoa: Sérgio de Jesus Alves de Azevedo. Sérgio é padre do Missionário Sagrado Coração (MSC) no Santuário Nossa Senhora Aparecida do Sul, aqui em Itapetininga. Mas sua origem é distante, tão distante que nem mesmo o Google consegue nos dizer. São mais de 3,9 mil quilômetros, distância entre Itapetininga e Manaus (AM). Mas São Gabriel da Cachoeira (AM), cidade de nosso padre índio, fica ainda mais longe que a capital do Amazonas. O pequeno município fica entre as fronteiras com a Colômbia e a Venezuela.

 

Foi lá que padre Sérgio veio ao mundo. Nasceu na tribo da etnia Tukana, dentro de uma reserva indígena já descoberta pelos brasileiros há mais de um século. Sua mãe, Anita Alves, é venezuelana. E seu pai, José Azevedo, índio. Os dois são os caciques da tribo, isto é, tomam as decisões do grupo. “É como se fossem prefeitos, para fazer uma comparação. A diferença é que lá o cacique também trabalha na agricultura, pesca, caça, entre outros trabalhos”, explica o padre.

 

O religioso tem quatro irmãos e juntos estudaram até a quarta série com o professor da tribo, um brasileiro que vinha ensinar português, matemática, ciências, geografia e tantos outros conhecimentos inacessíveis na natureza virgem. “Sempre gostei muito de estudar. Não queria continuar com a mesma vida sofrida de meu pai, pois era muito dura, então sonhava em ser um antropólogo como aqueles estrangeiros que vinham na minha tribo”, conta.

 

O garoto que gostava de aprender
Sérgio era diferente dos irmãos e demais meninos da aldeia. E logo aos 12 anos já precisou tomar uma grande decisão: separar-se dos pais e viver na cidade, onde na sede paroquial da igreja iria continuar os estudos. Eram mais de cinco horas de distância de barco entre a cidade e a tribo. 
“Não imaginava ser padre nessa época. Comecei a viver com as irmãs selesianas, da congregação Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), que catequizaram a cidade toda. Lá conheci a Irmã Elizabeth, uma madre alemã engenheira civil, que marcou minha vida”, lembra.
Na adolescência, além de estudar, padre Sérgio também começou a trabalhar. Aprendeu a pintar, fazendo serviços para as irmãs e para outras pessoas na cidade. Foram mais de 5 anos distante da família até revê-los aos 17. “Nessa época estava começando a ganhar um dinheiro. Ainda sonhava em ser antropólogo e morar em Manaus. Até cheguei a namorar uma garota, então nem passava por minha cabeça em seguir na vida religiosa”, conta.
 

Fé e oração
As coisas foram mudando quando Sérgio começou a seguir as irmãs em suas orações diárias. “As irmãs oram três vezes ao dia, de manhã, no almoço e à tarde. No começo, só ficava de canto olhando, mas depois comecei a rezar junto com elas. Irmã Elizabeth, percebendo essa minha aproximação com Deus, sugeriu que eu entrasse para um seminário, mas eu disse não. Ela então aconselhou que eu fizesse parte de um grupo de jovens da igreja da cidade”, relata.
Sérgio disse sim e, apesar da desconfiança, acabou se enturmando. No grupo aprendeu a tocar violão, assim passou a ir cada vez mais à igreja para cantar e tocar. “Me sentia valorizado, porque o grupo dependia de mim. Fazer parte do grupo da igreja me trouxe a vocação para a vida religiosa.”

 

Decidido, porém, Sérgio precisava contar isso ao padre Ivo Trevizol, um gaúcho não muito dos simpáticos. “Ele ficou espantado: ‘Tá maluco? Índio virar padre? Você deveria é casar e ter um monte de filhos como todo mundo aqui’, ele me disse. Fiquei triste e contei o caso à irmã Elizabeth, que riu da situação. Ela conversou com o padre e pediu que eu falasse novamente.”
“Quando sentei para conversar de novo, ele estava diferente. ‘Você quer mesmo ser padre? Basta eu fazer uma carta para o bispo com o seu pedido.’ Ficou acertado que em alguns meses eu entraria para o seminário, porém tinha que avisar minha família.”
Ao voltar à tribo, Sérgio ouviu um sonoro não do pai. “Ele sempre me apoiou nos estudos, mas quando falei da vontade de ser padre ele ficou muito bravo. É que ele tinha combinado com outra família que eu casaria com uma jovem. Então eu estava desonrando sua palavra. Mas isso hoje já mudou, no dia de minha ordenação lembro de ver meu pai todo orgulhoso”, comenta.

 

Vida no seminário
Passaram-se os meses e finalmente Sérgio entrou para o seminário. Ele e outros quatro rapazes, todos índios. Aos poucos os colegas foram desistindo e ele resistindo. “A cada mês um ia embora. Eles não souberam lidar com a vida no seminário, que realmente é difícil. Você perde toda liberdade, precisa acordar na hora que mandam, fazer o que mandam, limpar, cozinhar, estudar, orar muito”, lembra.
“Fiquei dois anos morando com três padres, entre eles Jorge, o meu formador. Quando estava no terceiro e último ano, a congregação MSC achou melhor fechar o seminário, assim ficaria sem poder ser padre. Mas graças a Deus o bispo da cidade, na época o chinês Dom José Song, me aceitou na congregação dos salesianos”, relata.

 

Entrada para o MSC
Terminou o seminário, estudou filosofia, teologia e aos 32 anos foi ordenado padre. Foi pároco em São Gabriel da Cachoeira por dois anos, até que recebeu de Dom Manuel o convite de voltar ao MSC. “Era muito querido pela comunidade, mas sentia solidão sendo pároco. Morava na casa paroquial e era muito grande. Pensava até em deixar a vida religiosa, até que surgiu a possibilidade de voltar para o MSC. Me encontrei com o padre, agora bispo Manuel, que é aqui de Itapetininga, e ele me instruiu no que fazer”, diz.
Para fazer parte da congregação, porém, padre Sérgio teve que fazer um ano de noviciado em Itajubá (MG). E pela primeira vez saiu do Amazonas. “Sofri muito com o frio. Depois desse um ano de noviciado vim para Itapetininga e estou aqui desde 2017”, completa.
A história do padre Sérgio nos mostra o quanto devemos ser perseverantes. Foram inúmeros obstáculos até finalmente se tornar padre, tantos momentos em que desistir era mais fácil, porém, nenhum obstáculo é grande o bastante se há verdadeira vontade dentro de nós.

E isso é Top!!
 

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