Pecado Capital

            Confesso que o tema desta vez é fácil para mim. Tratando-se de comida, arregalo os olhos e salivo...

            Sempre comento com minhas pacientes que gordo é gordo; pode estar magro, mas pensa como gordo. E sou assim. Quem me conheceu nos áureos tempos de Peixotão sabe disto. Alguns até hoje me chamam de Gordo, já que cheguei a pesar quase 90 kg aos doze anos. Emagreci (e cresci) no SPA da Escola de Cadetes, em Campinas – precisamente 20 kg e 15 cm – quando tinha por volta de quinze anos.

            De qualquer forma, embora não tão magro, mas nada assustador, continuo pensando como gordo. Ou seja, para o gordo não há limites; um pacote de “bis” ou de bolacha recheada tem o mesmo efeito de uma unidade; basta darmos o fim deles. Ao contrário do Pequeno Príncipe, que dizia que o essencial é invisível aos olhos e só se vê bem com o coração, a gente só vê o fim da comida se contar a quantidade olhando bem para ela e medindo bem a quantidade, já que o estômago é infinitamente insaciável. Ou seja, se abusar a gente recai do estar magro para o realisticamente ser gordo....

            Após este pequeno lembrete aos colegas gordinhos e simpáticos (todo gordinho é simpático), ressaltando os “perigos” da quantidade desmedida, resta-nos a compensação pela qualidade ou pelo exotismo, ainda que de forma esporádica. Eu, particularmente, prefiro experimentar comidas diferentes, principalmente aquelas chamadas regionais, já que não sou chegado a grandes refinamentos culinários. Posso até não gostar, mas sempre experimento. Lembro que quando estava na faculdade guardamos dinheiro para ir num restaurante recém-inaugurado; o cardápio era pouco explicativo e pedi um “beauf tartare”; sei lá como, mas pensei numa bistecona incrementada. Imaginem minha cara com um monte de carne crua coberta por gema de ovo também crua, feito na base do mexidão (e daí tudo começou). Na próxima fiquei de cara com um prato nordestino (não me lembro do nome) em que se mistura feijão de corda, rapadura e outras coisas. Serviu também a picanha com mandioca no Mato Grosso do Sul (aqui também se come, mas lá a mandioca é cozida, quase uma papa), ou mesmo uma especiaria mineira que se chama “ora pro nobis”, que adoro. Tomei uma cerveja em Bonito (MS), com excelentes amigos e com o filho, petiscando uma porção mista de jacaré, capivara e outras carnes diferentes e experimentei, e gostei, a “parrilla” (um mistão de carne, úbere, rim, tripa e chouriço) nas estradas do Uruguai. Resumindo, troquei o excesso pela diversidade.

Só não me desce caju, beterraba (é nojento) e rabanete. Ah! Bolinho de miolo: experimentei, mas não gostei.

            Por fim, vai aqui uma receita fácil e diferente, que aprendi, modificando um pouco, no Paraná. Pegue porções iguais de patinho moído, pernil moído e pinhão cozido e descascado. Passe dois terços do pinhão no processador e pique o resto. Misture tudo a mão, temperando com sal, pimenta do reino, pimenta dedo de moça picada, um pouco de cachaça e azeite (se quiser, para melhorar a liga, um pouco de farinha de rosca). Unte pires de chá com azeite e molde a massa fazendo hambúrgueres grossos. Depois, é só por na brasa.

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