Mais uma data para comemorar: 125 anos de história das ferrovias em Itapetininga

Atualizado: Out 22


Um trabalho fantástico do jovem Arquiteto, Planejador Territorial e pesquisador, Igor Matheus Santana Chaves, conta a história de Itapetininga, a partir de sua pesquisa sobre a ferrovia em Itapetininga, intitulada: “O Legado Patrimonial da Estrada de Ferro Sorocabana na Cidade de Itapetininga-SP”, defendida em 2019. Esta dissertação de Mestrado, foi realizada pelo programa de pós-graduação em Planejamento e Gestão do Território, da Universidade Federal do ABC, sob orientação da Profª Drª Silvia Helena Facciolla Passarelli, uma das percursoras da pesquisa sobre patrimônio ferroviário no Estado de São Paulo.


A pesquisa acadêmica é uma diversão para quem valoriza a história e a cultura de Itapetininga. A Top da Cidade disponibiliza o acesso através de link ao fim da matéria.


Em suas quase 130 páginas, repletas de dados históricos e fotos memoráveis, o autor da pesquisa ‘‘passeia’’ entre os diversos caminhos que levaram a cidade até os dias de hoje, desde as origens tropeiras até “o papel da Estrada de Ferro Sorocabana na formação da região de Sorocaba e Itapetininga, por conta do Ramal de Itararé, único trecho a interligar até os dias de hoje, o território paulista aos demais estados do Sul”.


Igor valoriza os diversos suportes em que o legado da ferrovia se estabelece na cidade, demonstrando a importância de reconhecê-los como parte integrante e indissociável da história e memória urbana itapetiningana. Para ele, fomos e somos tropeiros, mas também ferroviários e mais outros grupos de memória.


Em linguajar acadêmico, mas sem perder a versatilidade, em riquíssima redação, Igor conta que foi motivado pelo hábito, desde a adolescência, de andar pelos trilhos da cidade, como fonte de inspiração... “Depois veio a graduação em Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Sorocaba (UNISO), o estágio na Secretaria Municipal de Trânsito e Cidadania (SMTC), cuja sede é na antiga estação ferroviária de Itapetininga, bem como nos posteriores trabalhos que envolveram as secretarias de Planejamento e Cultura; além do mais, o trabalho ‘Conservação e Digitalização do Acervo Júlio Prestes de Albuquerque no Centro Cultural e Histórico Brasílio Ayres de Aguirre em Itapetininga - SP’ me permitiu ter acesso ao acervo histórico da cidade, inclusive da EFS – Estrada de Ferro Sorocabana”, conta.


O trabalho desperta como um alerta à comunidade, que já começa a demonstrar consciência quanto à importância da preservação da sua própria memória e seu patrimônio cultural. Ele cita o jornalista e escritor uruguaio, Eduardo Galeano: “a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la”, como motivação pessoal na busca por melhores práticas que busquem e identifiquem a valorização de sua história e identidades.


Estava encontrada a motivação!


SOBRE A PESQUISA


A dissertação se propõe a preencher parte dessa lacuna a partir da análise do Ramal de Itararé e da presença da ferrovia em Itapetininga, ao focar a relação da ferrovia com a sua expansão territorial e interferências nos hábitos e costumes, ou seja, do ambiente construído a cultura e memória urbana da cidade: é o patrimônio ferroviário de Itapetininga!


No mapa, o traçado do Ramal de Itararé da extinta companhia Sorocabana. Também apresenta os distritos que fazem parte do município e que a linha férrea acompanha, bem como seus municípios limítrofes.





A dissertação foi organizada em três capítulos:

Capítulo 1 – O trem de ferro

Capítulo 2 – O trem na cidade

Capítulo 3 – A cidade no trem


Assim, a pesquisa de Igor começa com origem de Itapetininga, primeiramente como rota indígena (caminho de Peabiru), e posteriormente, nos caminhos das tropas – onde consolida seus núcleos. O tropeirismo foi uma das atividades econômicas mais importantes para o eixo centro-sul. Em Sorocaba, as tropas foram comercializadas nas Grandes Feiras de Muares, a fim de atender aos mercados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso e até mesmo as províncias nordestinas.


A partir do meio do século XIX, a ferrovia entra em pauta no cenário brasileiro como o elemento de integração que o Estado precisava para garantir os seus avanços. A estrada de ferro era vista como sinônimo do progresso e seria o principal mecanismo de articulação territorial, tanto para o escoamento das produções, quanto para a segurança do território e de toda a sua extensão.


Se a Mogiana tinha a finalidade de o café para Santos, a Sorocabana visava o algodão e a pecuária, em expansão naquela época; posteriormente, a indústria têxtil da “Manchester Paulista”.


A chegada!


A produção de algodão na região, iniciou-se em meados de 1864, com grande prosperidade na cidade se noticiava o registro de 8 máquinas de descaroçar na cidade. O acúmulo de capital em virtude desse ramo de produção foi muito importante para a chegada da ferrovia pela cidade.


Outro fator importante é o tropeirismo. Os tropeiros veem na cultura do algodão a solução econômica para seus negócios frente ao fim da sua principal fonte de renda - o comércio de animais. Assim, intensificam-se os investimentos na cultura têxtil, que já se encontrava em ascensão na região de Sorocaba. Entretanto, era preciso melhorar o escoamento de algodão e facilitar a chegada de maquinário para as fábricas.


O Ramal de Itararé seria o tronco ferroviário responsável em interligar a capital paulista e Sorocaba com os Estados do Sul do Brasil e demais países do hemisfério, tanto por questões bélicas, de povoamento e, principalmente, para a melhoria da comunicação interna para o comércio.


Na época de Itapetininga colonial, a cidade pouco se expandia para além do quadrilátero de seu núcleo inicial. Segundo relatos nas vésperas da independência do Brasil, para o censo realizado no ano de 1888, havia na cidade 409 prédios (5 assobradados e 6 sobrados), 13 lojas de fazendas, 15 armazéns, 1 farmácia, 2 padarias, 2 dentistas, 1 médico, 6 advogados, 2 jardins públicos, 1 teatro, 1 clube de campo, 1 igreja e 5 capelas.


O início da construção do ramal se deu em 1882, e o decreto que aprovou seu desenho até Itapetininga (e também até a divisa com o Paraná), foi o Decreto nº 10, de 24 de novembro de 1888, para a Estrada de Ferro Sorocabana.


A história dessa companhia se inicia em 1870, em um momento de muito investimento para as empresas ferroviárias. A Sorocabana, tem suas gêneses com uma comitiva de Sorocaba, liderada por Luiz Matheus Maylasky, em conjunto de Ubaldino Amaral, Roberto Dias Baptista e Antônio Lopes de Oliveira (parte da elite progressista e maçônica da cidade). O retorno garantido do investimento proporcionou a expansão da companhia em diversos trechos ferroviários.


Para alguns autores itapetininganos, a ferrovia chegou à cidade graças ao empenho do Coronel Fernando Prestes (na época deputado estadual), em conjunto das ações políticas de Peixoto Gomide. Outros atores foram Cesário Leonel Ferreira (filho do Coronel Joaquim Leonel), que incentivou financeiramente, e com o auxílio de seu primo Ataliba Leonel e o engenheiro Alfredo Maia, a elaboração dos projetos técnicos.


Assim, o trem de passageiros chega à cidade, em 11 de maio de 1895, e em 1904 é edificada a primeira estação de Itapetininga. Um importante registro da ferrovia é descrito por Galvão Junior (1956), ao narrar a euforia e o espanto dos itapetininganos no seu primeiro contato com o trem de lastro em 1894:


[A população delirava. Todo o mundo queria vêr de perto o primeiro “trem de ferro” que chegava a Itapetininga, com exceção de uns poucos matutos que fugiram espavoridos. [...] Maquinista e foguista eram alvos da admiração do povo que se comprimia na plataforma da estação. E os foguetes estouram no ar, anunciando o faustoso acontecimento que viria impulsionar o progresso desta terra... ]


Hoje, a Estação Ferroviária, a Oficina de Locomotivas e Trens, e o próprio CASI - Clube Atlético Sorocabana de Itapetininga representam importantes lugares de memória da ferrovia. Para além de mudanças materiais, a Estrada de Ferro Sorocabana trouxe para Itapetininga uma nova dimensão do tempo, uma nova organização urbana e mudanças culturais advindas da diminuição das distâncias e intercâmbios entre as sociedades.


Igor Matheus Santana Chaves presenteia Itapetininga com uma joia rara, com um memorial descritivo de inestimável valor histórico – e não guarda para si, pois conhecimento permite à humanidade.





Para saber mais consulte:

SANTANA-CHAVES, Igor Matheus. O Legado Patrimonial da Estrada de Ferro Sorocabana na Cidade de Itapetininga-SP. 2019. Dissertação (Mestrado em Planejamento e Gestão do Território) - Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do ABC, Santo André, 2019.


Acervos consultados durante a pesquisa:

Centro Cultural Brasilio Ayres de Aguirre (CCBAA), Museu da Imagem e do Som (MIS), Museu Ferroviário de Itapetininga (MFI), Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo (IGC), Museu Ferroviário de Sorocaba (MFS), Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP) e acervos pessoais de ferroviários.



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