Amanhã, eu ‘‘vô num vim’’



Quarta-feira, dia 15.07, 11h, o telefone do escritório dispara e o WhatsApp enlouquece. E o motivo era o Dr. Uedney.


É verdade? Perguntavam, incrédulos e eu, atônito, buscava a resposta, que veio com gosto de fel. Tudo muito rápido, estonteante!


Pelos idos de 1978, já frequentando os bancos acadêmicos do Direito e atuando como escrevente no “Fórum Velho” conheci um Magistrado diferenciado.


Austero, sisudo, extremamente competente e paradoxalmente um exímio gozador, circunstâncias contrastantes que fazia dele um ser humano admirável.


Era o cara! Paradigma para qualquer estudante de Direito que, naturalmente, como eu, cobiçava o almejado cargo de Juiz de Direito.


Sua fala nas saudosas confraternizações da “Família Forense” era, de longe, a mais aguardada, porque ali ele desnudava a sua alma, desmontando qualquer obstáculo que o tornasse inacessível.


Penso que essa característica se espraiava em todos os setores de suas atividades, tamanha a sua capacidade oratória.


Sempre em busca do sonho da Magistratura, exonerei-me em l984 do cargo de escrevente para experimentar a arte de advogar e, assim, fechar o ciclo que entendia necessário ao futuro exercício da judicatura.


O sonho era, antes, ser Juiz, mas depois, ser um Juiz igual ao Dr. Uedney.

O tempo foi passando e com a sua aposentadoria o destino o trouxe para compartilhar seus conhecimentos em nossa modesta banca de advocacia.


Uma imensa honra e alegria, que perdurou por mais de trinta anos até a sua passagem para o mundo espiritual, período em que aprendi a amar a profissão de advogado, certamente influenciado pelas pitadas de tempero do ex-magistrado, na maioria dos nossos trabalhos.


E não é que ele se tornou também um brilhante advogado? Ainda ressoam suas constantes perguntas, ao deparar-se com documentos e processos à sua espera, sobre a sua mesa, para estudos.


- De que lado estamos?


Vi lágrimas brotarem nos olhos de seus clientes durante a leitura de suas defesas, elaboradas por um cérebro privilegiado e vi partes ex-adversas tornarem-se seus clientes, provavelmente atraídos pelo respeito que sempre devotou às pessoas envolvidas nos conflitos.


Presenciei advogados, muitos advogados, buscando conselhos do nosso “decano”, não só para o exercício profissional.


Sua cultura invejável e extenso rol de amizades, atraía muitos para uma conversinha descontraída, durante o cafezinho da tarde, no escritório. Pobre, rico, culto ou matuto, não importava, o tratamento a eles dispensado sempre foi de excelência.


Seu caráter esteve à prova em diversas situações em que a advocacia nos oferece e jamais titubeou, demonstrando respeito à ética, à moral e aos bons costumes.


Seja como Juiz ou advogado, sempre pautou pelo rigor no cumprimento dos horários dos compromissos assumidos.


Captava, nas entrelinhas dos escritos e conversas, o real objetivo do seu interlocutor, circunstância que facilitava o desenvolvimento e animação de seus diálogos.


O dinheiro, que ele tinha o suficiente, já não era tão importante quanto mantê-lo em atividade nas lides forenses, uma de suas paixões.


Acometido por doença renal, ainda assim, com rotina reduzida, honrava-nos com a sua presença física no escritório e era quase sempre dele, a definição, nas peças jurídicas, da escolha “do canto mais apropriado para a cobrança do pênalti”.


Falar do Dr. Uedney Junqueira do Amaral é falar de amizade, honradez, alegria... Detentor de um português castíssimo, abusava das experiências gramaticais colhidas dentre sua enorme clientela e, dentre elas, uma passou para o seu cotidiano para anunciar sua ausência ao escritório, por um motivo qualquer – “vô num vim”.


Poderia ter sido alvo de muitas homenagens, além daquelas maiúsculas já recebidas ao longo de sua existência, mas quem o conhecia sabia de seu avesso ao “vedetismo”.


De minha parte e da minha família, só gratidão, pelo privilégio do convívio com esse Juiz que também dignificou e muito a profissão de advogado.


No dia 14.07.20, o Dr. Uedney falhou, pois não enviou o bilhetinho com o seu “Vô num vim”, amanhã, dia 15.07.


O motivo, no entanto, foi perfeitamente justificado, pois fora convocado pelo Comandante do Universo, para tarefas muito mais importantes em Segunda Instância e com início imediato, onde certamente continuará fazendo a diferença...


Agora, só resta dizer: ao Dr. Uedney, Deus!


E adeus, Dr. Uedney Junqueira do Amaral!!!


por José Hércules Ribeiro de Almeida

*Obrigado, Fábio, pelo convite para este depoimento.

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