Laura Soares: @eu.autoimune

Atualizado: Ago 23


Em janeiro de 2017, durante uma partida de vôlei com amigos na chácara de meu pai percebi uma mancha em formato circular em meu antebraço direito. Pensei que pudesse ter me machucado durante o jogo e não me importei...


Semanas se passaram e eu percebi que a mancha começou a ficar mais escura nas bordas e, ao consultar um médico na emergência por outro motivo, recebi orientações de não me preocupar porque deveria se tratar apenas de uma alergia.


Alguns meses depois apareceram manchas parecidas em minha perna e nas minhas costas. Decidi que seria melhor consultar um especialista e, após 6 meses do aparecimento da primeira mancha e uma biópsia veio o diagnóstico: ESCLERODERMIA - é uma doença autoimune em que as nossas células de defesa, que deveriam nos proteger de agentes externos, acaba por começar um ataque a tecidos saudáveis do nosso corpo.


Receber o diagnóstico de uma doença autoimune, crônica e que não tem cura é algo muito doloroso. Imediatamente iniciamos um processo de enlutamento em razão da perda do “corpo saudável”. É comum negar, sentir raiva, iniciar um processo de barganha, deprimir e algumas pessoas têm muita dificuldade de atingir a aceitação, resolvendo de forma saudável e adaptativa o processo do luto.


Como psicóloga, eu vivenciei um período de muitos questionamentos e imediatamente busquei auxílio profissional porque reconheci em mim a necessidade de dividir o peso que nós, autoimunes, carregamos ao ouvir o diagnóstico de algo que não se cura completamente.


Nas doenças autoimunes, chamamos o período de ausência de sintomas de remissão. Não falamos em cura porque mesmo com períodos de remissão, a doença pode voltar a ficar ativa em períodos de estresse, infecções, entre outros.


Em 2018 eu estava medicada há seis meses e sem novas lesões. Acreditando estar em remissão, interrompi o uso das medicações e, no final do ano, novas manchas começaram a aparecer. Foi aqui que eu decidi que precisava fazer algo, que eu precisava me reconstruir e que eu poderia usar a minha dor e decepção como combustível para não desistir de alcançar a sonhada remissão e para tentar ajudar outras pessoas.


O Instagram @eu.autoimune surgiu em março de 2019 como uma forma de me conectar a outras pessoas que tivessem o diagnóstico de doenças autoimunes e, principalmente, esclerodermia. Quando fui diagnosticada a primeira coisa que fiz foi buscar informações na internet sobre o assunto e me lembro bem de ter conhecido poucos perfis que falassem sobre a doença.


Desde a criação do @eu.autoimune, recebi muitas mensagens de pessoas que possuem o mesmo diagnóstico mas relatavam dificuldades de aceitação. É comum ouvir relatos de pacientes que passam a não utilizar roupas que deixem suas manchas expostas, que se sentem envergonhados devido à forma como as pessoas olham para nossas lesões. Algumas pessoas têm medo de passarem a ser rotuladas como pessoas doentes pela sociedade, sentem-se envergonhadas pelas lesões aparentes na pele, outras possuem o receio de serem criticadas e colocadas numa posição de vitimismo.


Hoje, esse perfil não tem mais só a pretensão de ser um canal para me conectar com outros pacientes. Ele serve também para acolher dores, para ajudar pacientes a se conectarem uns com outros, com as histórias e criar uma rede de apoio, para mostrar que é possível sim atingir a aceitação, se adaptar, enxergar uma luz no fim do túnel e, acima de tudo, para transmitir e compartilhar amor e esperança.




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