Roberto Amaral: Geni e a Pandemia

Quando eu era criancinha em Barbacena, ops!, em Itapetininga, foi lançada a peça “Ópera do Malandro”. Entre as músicas desta ópera moderna, lindas, fez muito sucesso “Geni e o Zepelim”, até provavelmente pelo refrão “joga b... na Geni, ela é feita prá apanhar, maldita Geni” (naquele tempo muitos levavam um tapa na boca por falar b...). Todo mundo cantava, reforçando o refrão, quase que num desafio à censura, recém derrubada, e certamente também num protesto de autoafirmação típica da adolescência.

Todos se importavam com o “palavrão” e poucos prestaram atenção à letra. Resumidamente, uma cidade é salva de um bombardeio por um Zepelim gigante pela Geni, pessoa de hábitos pouco ortodoxos e questionáveis pela moralidade burguesa e falsamente puritana vigente. Não entrarei neste mérito, tranquilizem-se.

O ano de 2020 me fez recordar desta música; a comparação foi inevitável. O Zepelim gigante, travestido de pandemia, fez cidades tremerem e apavorou cidadãos de bem, assustados por governantes e falsos intelectuais de facebook que, respectivamente, se aproveitam de um eventual caos para se promoverem e aparecerem na mídia como salvadores da pátria (lembrei-me também do Sassá Mutema, que brejeiramente mandou-os às favas) e alarmar a população com ideias falsas e carentes de embasamento científico. Não se trata este texto de uma negação da doença; ela existe como todas as outras pandemias, é grave como todas as outras também, seja ela artificial (!) ou natural (?), ceifou e ceifará muitas vidas; mas ambos, políticos e falsos profetas, de uma forma ou de outra, tentam restringir de forma hipócrita o que o ser humano tem de mais importante, sua liberdade e seu livre arbítrio. Restringem a liberdade (principalmente de pensamento) através do uso do medo e do pavor, querendo nos transformar em um bando de cordeiros; é o sonho dos déspotas, sejam de direita ou de esquerda, que acabam se escondendo atrás das máscaras em cima de palanques e a vista das reportagens, com a colaboração destes, em busca do próximo voto, fama efêmera e de ibope. Fique quietinho em casa, não faça nada, absolutamente nada, não pense, mas não se esqueça de votar em mim que cuidarei de você para não morrer.

Se soubessem que a morte tem muitas faces, inclusive a pior delas, que é aquela em vida...

Dito isto, passada a pandemia (e ela vai passar), se esquecerão das Genis, assim como na música. Servidores essenciais, policiais, médicos e demais profissionais da saúde, serão esquecidos. Serão heróis de momento apenas, lembrando que herói, para mim, é apenas aquele que fez o que tinha de fazer, apesar do medo.

Restarão a estes, apenas, a consciência tranquila do cumprimento de seu juramento. Críticas vindouras terão que ser amortizadas na cama somente pelo seu travesseiro, pela companhia de seu cônjuge e pela sua consciência.

Força e honra, Jaquelines, Hernanes e Márcias, entre tantos outros.

Feliz 2021. Que venha a próxima peleja!







Roberto Amaral

Av. Darcí Viêira, 1904 - Centro, Itapetininga/SP

15 3272-4647









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