Saudoso Passado

Por Manoel Silvério AJORI  380

Ao ter sido acareado por foças de um destino pungente, mesmo não sendo do agrado, a idade avançada trouxe-me uma aposentadoria, por enquanto indesejada, sabedor de que muito ainda poderia realizar em meu campo de trabalho. Especialista em recepção de sinais de satélites e ainda professor de artes marciais, de Hapkido, não cheguei a ser mestre, sou apenas um idoso faixa preta terceiro DAM.

 

Agora, com saudades de um passado recente, nas tardes quentes, quando a feroz boca da noite começar a deglutir a claridade do dia, chego na Avenida Peixoto Gomide, em frente das escolas, um silêncio meditativo vai sendo quebrado pelo som saudoso do craquear das folhas secas sob meus pés ao meu andejar, aquelas folhas secas caídas ao chão me fazem recordar o passado trazendo uma nostalgia gostosa, aquela sensação de que fizemos tudo bem feito.
Toda trajetória ditada nos designes das euforias nos dramas de cada um seja recompensado com melhor modo de vida. Ao acender a fogueira das exaltações de um vagaroso passeio, procuro entender o que está por vir... O futuro é uma incógnita, o passado da cidade está se exaurindo e até as ruas de terra batida já se extinguiram. Hoje o asfalto cobriu tudo, os belos sobradinhos de outrora deram lugar para outros meios de se fazer dinheiro; o tradicional Cine Olana, com sua fachada artisticamente ornamentada foi derrubado para em seu lugar ser colocado um estacionamento para carros; o cine São Pedro deu lugar à bela loja Cibelar e o cine

 

São José cedeu espaço para o primeiro prédio de apartamentos desta cidade - que hoje tem muitos, todos cutucando o céu... no lugar do cine Aparecida hoje um terreno vazio, até o Empório Santos, um gigante no comércio varejista, ostentava quase quinhentas cadernetas mensalistas. O Seu João, sempre brincalhão atendia o balcão, Dona Alda atendia a freguesia e passava as notas fiscais no livro diário, o Pedro entregava as compras dos fregueses em uma charrete movida a tração animal, no balcão o João Duarte, com muita educação perguntava aos fregueses: “A senhora vai levar? Quer que mande entregar? Posso marcar? E o senhor, precisa do quê? Pode comprar, nós marcamos para pagar no fim do mês...” João Duarte sempre foi assim, gentil e humilde, era o braço direito do patrão.

 

Enquanto ando, as horas vão passando, ali passeando, a tarde vai ficando e eu do passado continuo lembrando, saudades é minha companheira, tive um bom passado, hoje vivo a recordar, a noite já é tarde, para casa vou voltar, amanhã tem mais. Tchau.

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